saber a terra
em relação direta com os ecossistemas locais, vamos documentar, aprender e partilhar as artes e os ofícios ancestrais
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Ao longo das estações, convidámos artesãos locais, detentores de conhecimentos valiosíssimos, a visitarem a Landra para nos ensinarem práticas básicas de reconhecimento e de trabalho com materiais naturais, abundantes na nossa biorregião.
Fomos conhecer profundamente a proveniência e a utilidade de materiais como os vimes, a lã, a madeira e a pedra, com vista a desenvolver uma cultura relacional, sustentável e resiliente. Em relação direta com os ecossistemas locais, propusemo-nos a documentar, aprender e partilhar artes e ofícios ancestrais. Em oficinas de criação, convidámos também participantes a se juntarem na aprendizagem destes conhecimentos rudimentares, no sentido de desenvolverem uma criação conjunta. Todo o processo ficou registado em vídeo, som, e escrita. Apresentamos este ciclo numa exposição na Casa da Cultura de Cabeceiras de Basto, de Novembro 2025, ao final de Janeiro 2026. As publicações Saber a Terra serão lançadas na Livraria Inquietação, no último fim-de-semana de cada mês que se segue, acompanhando assim as estações: Varas - Fevereiro / Madeira - Março / Pedra - Abril / Lã - Maio |
Equipa
Organização, Direção Artística, e Edição: Landra (Sara Rodrigues e Rodrigo Camacho) / Som e Apoio à Produção: Beatriz Rola / Coordenação e Captura de Vídeo: João Ferreira / Edição de Vídeo: Mariana Vasconcelos / Fotografia: Magda Pereira / Design: Paulo Mariz / Assistência: Clara Santiago Artesãos Cesteiro Joaquim Pereira / Carpinteiro José Machado / Pedreiro José Eduardo / Mulheres de Bucos: Ilídia Oliveira, Ana Pires, Teresa de Jesus Oliveira, Maria Jorge Gonçalves, Maria Simões, Elisa Brás e Laura Neiva / Pastoras Rosa Pereira e Irene Carvalho Apoios O projeto Saber a Terra foi possível com o apoio da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto e do programa Arte e Coesão Territorial da Direção-Geral da Artes. Contou ainda com as parcerias da Casa da Lã, Junta de Freguesia de Riodouro, Livraria Inquietação, Colégio São Miguel de Refojos e Teque Artes. Instagram @saber.a.terra |
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O tempo da rocha ultrapassa-nos. É no manto rochoso, sólido, que reside a outra parte da água, para que a vida aconteça. O granito, abundante na região norte de Portugal, forma-se a partir do arrefecimento lento do magma no interior da crosta terrestre.
Em Cabeceiras de Basto, a pedra granítica compõe e sustenta todo o concelho com socalcos, muros e pontes, casas e espigueiros, fontes e bancos. Os pedreiros eram também eles abundantes e, antes das máquinas, muitos trabalhos eram só possíveis com uma vila inteira. |
O Pedreiro José Eduardo, apesar de usar ferramentas a motor para poupar tempo e esforço, ainda sabe rachar uma pedra com recurso a poucos instrumentos de ferro. Há na verdade trabalhos que ainda exigem este manuseamento, e a mão do pedreiro tem que ser tão delicada quanto forte. As pedras encaixam-se com sabedoria e arte, formando estruturas que permanecem no tempo, embelezando a vida.
Nesta atividade, percorremos os caminhos de rocha e saibro abertos na montanha. Entre a floresta e a casa, aprendemos a arte de extrair da rocha a pedra, e de a transformarmos. No embalo da criação das mais diversas formas, descemos também ao rio, permanente escultor, para apreciar as pedras arredondadas pelo constante trabalho da água. |
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A madeira (maciça ou transformada) está presente onde quer que se olhe. No entanto, a maior parte das objetos e estruturas que vemos hoje são de origem distante, longe da vista a durabilidade e o cuidado com os ecosistemas de onde são retiradas as inúmeras árvores.
Aqui em Riodouro, preparámo-nos para a atividade "do tronco à peça" com ferramentas simples como serras, machados, malhos e cunhas, guiados pelas mãos do carpinteiro José Machado de Pedraça, que trouxe consigo a sabedoria ancestral do pai e das gerações anteriores. Começámos com um passeio pela Landra para perceber como funcionam os carvalhais mistos da nossa região. Queremos compreender melhor os ambientes em que vivem as majestosos árvores; saber como nascem, vivem e morrem; como socializam e se organizam no espaço, transformando-o. |
De seguida, identificámos as espécies que foram apreciadas e utilizadas para diferentes propósitos durante milhares de anos. Aprendemos a selecionar as árvores para corte, e a transformar os seus troncos em secções básicas, que podemos utilizar para fazer de pequenos objetos a casas inteiras.
Com base nas indicações do carpinteiro, continuámos por nossa conta a transformar os blocos em peças. Assim surgiram as peças feitas pelas nossas próprias mãos, de valor cultural e ambiental acrescido tanto para nós como para a gerações que nos seguem. |
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A lã de ovelha é um material ainda muito usado no presente. Porém, a maior parte das pessoas utiliza lã que terá sido processada industrialmente antes de ser adquirida. A maior parte da lã tosquiada, como é o caso no concelho de Cabeceiras de Basto, é normalmente enterrada ou queimada pelos pastores que já não têm a quem a vender nem como a trabalhar.
Sentimos a importância de perceber então de que formas é que podemos resgatar e transformar este precioso material para os mais diversos usos. Assim, recebemos as Mulheres de Bucos para um conjunto de atividades entitulado 'da lã ao fio e ao feltro'. |
Começámos a partir da lã de ovelhas tosquiadas na região; com raças, características, e propriedades particulares. Experimentámos formas de lavar e tratar a lã, para diferentes usos, aprendendo também a esgadelhar à mão, a cardar com ferramentas manuais, e a fiar com fuso e roca. Por fim houve ainda experiências com feltragem; com agulhas ou por fricção a frio, a quente, com e sem sabão.
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Começamos com o Senhor Joaquim Pereira, de Outeiro, a aprender como se transformam em cestos e outras construções flexíveis, as hastes das árvores do género Salix (salgueiros, vimeiros, chorões...) mas também as fitas de rebentos verdes de castanheiro e carvalho.
Aprendemos métodos de poda para que estas árvores possam renascer todos os anos com mais hastes vigorosas. Recolhemos também material de várias partes de cada planta, dos troncos mais grossos aos galhos mais finos, e até às cascas bem expressivas. Nem o zangarinho e a silva ficaram para trás. |
No lameiro, juntámos ainda molhos de juncos que podem ser usados para tramas mais maleáveis. Fizemos por fim a preparação de todos os materiais para serem utilizadas mais tarde.
Já sem a presença do senhor Joaquim, partimos dos seus ensinamentos para criar as nossas próprias peças de cestaria e muito mais. Cada uma seguiu as formas dos materiais selecionados e o feitio do seu criador, com uma criatividade surpreendente que emergiu a partir da exploração das variadas plantas e do seu vasto potencial de entrelaçamento. |